domingo, 28 de setembro de 2008

Crônica no Saiba +

Já faz um tempo que minha crônica saiu no Jornal Saiba +, que serve de laboratório para os alunos que estão cursando Jornalismo Impresso aplicado.
Fiquei satisfeita, já que o professor não fez nenhuma crítica negativa ao meu texto (apesar de ter falado que faltava um pouco pra chegar num nível Saramago, mas convenhamos, né?!)

Aí vai:

Fim de uma era?

Mariana Linhares

Existem personalidades que conhecemos bem antes de nos reconhecermos por gente. Parece até que já nascemos sabendo quem é Dercy Gonçalves, Pedro de Lara, Waldick Soriano e, por essa razão, parecia que eles continuariam vivos por toda eternidade, ou pelo menos por nossa eternidade individual.

Eis que a realidade não abrange o campo da imortalidade e nesse ano essas três figuras tornaram-se página virada da História. Para alguns, eles talvez tenham sido apenas personagens cafonas da mídia, mas escondiam por trás do humor escrachado uma rica base artística de teatro, cinema e música, além de histórias de vida ímpares.

Parecia que a Dercy Gonçalves já tinha nascido bem velhinha, falando palavrões pelos cotovelos e banhada em blush, sombra e carmim, todos de cores fortes combinando com a roupa exagerada e cheia de acessórios. Mero engano. A mulher de vida sofrida, abandonada pela mãe quando criança, que chegou até a ser violentada quando moça, foi uma das maiores estrelas do teatro de improviso e cabaret.

Já Pedro de Lara, o eterno jurado mau-humorado do Show de Calouros do Silvio Santos, que sempre levava consigo um ramalhete de lírios debaixo dos braços, atuou no rádio antes da fama e chegou até a escrever um livro com temas controversos e polêmicos, seus favoritos.

Waldick Soriano não era cachorro, não mesmo, entretanto, teve uma vida difícil até conquistar a fama como cantor: engraxou sapatos e foi lavrador e garimpeiro, além de lançar-se à mercê da sorte ao sair da Bahia rumo a São Paulo em busca de uma vida melhor.

Do teatro de improviso, passando por buquês de lírios e graxa no sapato, chegamos à uma atualidade de celebridades momentâneas, não necessariamente abençoadas com o advento do talento ou alguma experiência relevante no universo artístico. Novas personalidades são colhidas da árvore de reality shows ou concursos de beleza, com prazo de validade tão longo quanto o de uma fruta madura.

Não há jargões ou características próprias que marquem essa nova geração. É como se vivessem na sombra de “Alô, Terezinha” e bacalhau voando pela platéia, perdidos na incapacidade de criar algo inovador que pudesse tornar-se o símbolo presente na memória dos indivíduos desde sempre, como fizeram grandes nomes do passado.
Soa como o fim anunciado de uma era, ecoando o fato de estarmos perdendo personalidades notórias de longa data enquanto personagens descartáveis ajudam a preencher o espaço que está se esvaziando lentamente.